sexta-feira, 4 de setembro de 2009

PARIMÉLON, A CRIAÇÃO DO HOMEM.























A criatura


A Criatura, não tem nome. Não tem aparência. É tudo que existe e o que não existe. Não tem idade, pois o tempo não existe fora da criatura. Fora dela nada. Basta-se a si mesma. Tudo que necessita, e a sua existência, acontecem nela e para ela. Todos os processos, imagináveis e não imagináveis, são possíveis a partir de si mesma. Todas as coisas são possíveis à criatura. Ela vive para si e alimenta-se em si mesma.

A composição da criatura é complexa e variada, mas basicamente, compõe-se de uma partícula elementar que chamarei de mélon e de um meio difuso cujo nome é parílima. Existe uma pequena parte da criatura que, devido a um fator alheio ao meio e a si, mas necessário a sua existência, foi criado e vem, desde então, se expandindo. Essa parte é formada por 5% de Protsx, 30% de mélon e 65% de parílima. É a parte da criatura onde se desenvolvem os processos de transformação e formação de matéria e energia, necessários a sua existência como ente. O nome dessa parte é Ptarr. Esse momento da criação de Ptarr, que agora chamarei de Btekan, foi o marco para a evolução da criatura. Ela, que até então, simplesmente existia, a partir de Btekan, iniciou uma série de acontecimentos que “despertaram” nela, num certo momento, a consciência de sua existência. Agora ela sabe que existe.

O “corpo” da criatura é formado por aproximadamente 2/3 de parílima. Parílima é uma substância escura que mantém o equilíbrio. A parílima não parece ter um fim especifico, mas é a partir da parílima que todas as coisas são formadas. Ela é a base de tudo que existe na criatura. Antes do evento do Btekan, só existia Mélon e Parílima. Elas são as responsáveis pela sua existência, se a criatura devesse ter um nome este nome seria Parimélon.

O Mélon é uma partícula elementar de ignição. É uma “faísca” que inicia o processo de transformação da parílima. Sua incidência na criatura é de cerca de 30%, antes do Btekan, era aproximadamente 35%. Os 05% foram gastos na formação de Ptarr. Quando o mélon entra em processo de expansão no seu núcleo, ocorre uma explosão que gera ondas que alteram a parílima, dando origem a átomos, fótons e todas as partículas existentes em Ptarr, inclusive a própria parílima e o mélon. Pois são esses elementos fundamentais que garantem a expansão de Ptarr. Sem eles não haveria como Ptarr expandir-se, já que o mélon assegura a criação dos elementos. Enquanto a parílima está em permanente expansão.

Esse é Parimélon. Único. Magnânimo. Ele sempre se pergunta qual a razão da sua existência. Essa é a sua eterna questão. Como não existe nada além de si, Parimélon só pode achar em si mesmo as respostas. Consciente de sua solidão ele procura nele mesmo a razão de existir. Quem sou eu? Do que sou formado? Se sempre existi e nunca vou terminar, a que fim serve meu existir? O que existe em mim, que justifique minha existência?

Partindo da certeza que apenas ele existe e que além dele nada, Parimélon, começa uma busca interna, pelas respostas que tanto anseia...

O início.

Parimélon, analisando a si mesmo, descobre que a sua composição é estranha. Ele é formado na sua grande maioria por parílima, uma substancia base que não tem aparente função e por partículas de Mélon, que apesar de ativas, não parecem ser de muita relevância a sua existência. Parimélon se detém a analisar esses elementos e, conclui que o Mélon é uma partícula ignitória e a Parílima uma base de formação de outras substâncias e elementos e, ainda, um motor para a movimentação desses elementos. Chegada a essas conclusões superficiais e sem nenhuma razão aparente de sua importância existencial. Parimélon vai mais a fundo e descobre uma pequena parte de si. Essa pequena parte é formada também por uma maioria de Parílima e Mélon. Ele quase desanima... Mas, analisando mais detalhadamente, descobre outra partícula: o Protsx. Eufórico ele se pergunta, seria esse o sentido da minha existência?

Ptarr.

Parimélon, ainda sob forte euforia, começa a desvendar seus segredos. Descobre que nessa parte existe o tempo, algo que não faz parte de sua existência como todo. É interessante descobrir que existe algo dentro dele que tem início e fim. Em Ptarr, (essa parte de Parimélon) a idéia de tempo e espaço existe o que provoca uma grande estupefação em Parimélon, ele se dá conta do que é a eternidade. Ele descobre o finito, o limite, a impossibilidade... Mas a ele, tudo é possível... Seria mesmo?

Ainda envolto nessas reflexões, ele percebe a existência de luz, já não é apenas o vazio, existe a luz. E ele, pela primeira vez, “vê”! Percebe a diferença do escuro e do iluminado. Essa nova descoberta amplia sua percepção. O movimento é percebido, essa claridade “anda”, vai do inicio ao final de Ptarr. Com esses elementos, Parimélon, avança no conhecimento de si mesmo, é possível calcular o tempo de existência de Ptarr e o que causou seu aparecimento. Não justifica ainda a sua própria existência, mas já faz sentido existir. De alguma forma, ele pressente que sua existência está ligada a esse pequeno pedaço de si mesmo. Ele sabe que aqui podem estar as resposta para todas as suas perguntas, ou pelo menos indícios, que o levem ao caminho certo. A investigação minuciosa de Ptarr é a chave da compreensão de si, dos seus mais íntimos segredos... Essa certeza vai tomando conta dele...

Parimélon, avança e descobre que Ptarr é o resultado de uma explosão de uma quantidade significativa de Mélon, cerca se 5% de sua composição, que causou uma reação na Parílima e deu origem a Ptarr. Desde então Ptarr se expande em todos os sentidos, a partir dessa explosão inicial. No início, Ptarr era completamente matéria, e sua temperatura era elevadíssima, a Parílima foi voltando a seu estado inicial e começou a expansão. A parílima é difusa e expandi-se rapidamente consumindo boa parte da matéria inicialmente criada pelo Btekan (explosão inicial, a qual Parimélon, assim nomeou), provavelmente, nos primeiros bilhões de anos de Ptarr, essa expansão se dava de forma mais rápida, do que no presente momento.

Apesar de a Parílima absorver rapidamente a matéria, uma pequena parte dela permaneceu e originou diversos aglomerados de pequenos “blocos” de matéria, que parimélon denominou de Brakten. Parimélon havia progredido bastante, na sua busca em si mesmo, mas, ainda nada justificava a existência dele. Permanecia a certeza de que de nada adiantava existir. Que propósito poderia haver numa existência passiva? Uma contemplação de si mesmo, sem objetivos... Porque só existia ele? Uma sensação estranha de vazio, de infinito, invadiu seus pensamentos... Uma inquietação desesperante o dominou, não entendia o que lhe ocorria... Ele “sentia” que precisava continuar, tinha que avançar mais e mais em seu íntimo... Necessitava desesperadamente de respostas...

Desvendando Ptarr...

Parimélon mergulhou mais profundo em Ptarr, vasculhou cada centímetro e a cada nova descoberta, aumentava sua ansiedade e seu desejo de saber. Eram incontáveis objetos, bilhões e bilhões de formações, matéria, gases, poeira, ondas, energia... Até chegar a um ponto de Ptarr, onde ele percebeu algo diferente do que já havia encontrado. Em um Brakten, ele atentou para uma minúscula formação com um objeto luminoso ao centro e alguns outros ao redor, que davam voltas neste. Aproximou-se e observou atentamente aquela curiosa formação. O objeto central irradiava luz e calor intenso. Examinou detalhadamente os outros objetos ao redor, e para sua estupefação percebeu, em um dos menores objetos, uma estranha aparência e uma energia que parecia emanar nele. Ele sentiu algo como uma pulsação, uma aceleração de movimentos inexplicáveis e inteligíveis a sua razão. Sensações das mais diversas, coisas inexplicáveis e absurdas... Alucinantes e maravilhosas...

Uma nova questão.

Passado um primeiro momento de estonteante surpresa, a calma volta a tomar conta de Parimélon. Ele absorve esse conhecimento “novo”. Vai aos poucos compreendendo toda a estrutura desse mundo. Seus elementos, sua geografia, sua história e seus habitantes. Ele “aprende” o que já sabia afinal, ele é tudo e tudo que existe é ele e nele está contido. Ele descobre que é único mais não é só, existe nele a multiplicidade. A solidão foi descartada. Ele coexiste em si mesmo. Uma nova abordagem de sua existência se faz necessária: seria ele o criador ou criatura? Se ele sempre existiu é natural que seja ele o criador de tudo que existe. Mas se assim o fosse, ele saberia e conheceria tudo que existe e assim não é. Assim sendo, presume-se que a criação independe dele, o que leva a uma nova questão: sendo ele o tudo e o todo e não tendo o conhecimento de tudo e nem do todo, como existe como tudo e o todo, se o tudo não interfere no todo e vice-versa?

Deixando um pouco de lado seus questionamentos, Parimélon se entrega a tarefa de absorver tudo que se refere à Terra, é assim que os seres dominantes(os homens) deste mundo o chamam. Parimélon, por uma questão de coerência, passa a “pensar” em termos e parâmetros do ponto de vista do Homem. Reorganiza seus conhecimentos de acordo com as descobertas humanas e seus pontos de vista. Para isso ele muda toda terminologia de acordo com a da humanidade. Ptarr é o Universo, Btekan é Big Bang, Protsx é átomo e assim por diante...Permanecendo apenas a terminologia original do que não é de conhecimento humano ainda.



O ser humano, a resposta de Parimélon.

Parimélon agora detém o conhecimento humano, a cerca do universo. Volta-se então para os seres que dominam este planeta. Sua história, sua origem e seus anseios.
Tendo absorvido esses conhecimentos, ele se deparou com a grande preocupação da humanidade, ou seja a origem da vida.

O pensamento humano está dividido em duas correntes antagônicas sobre a origem da vida, uma cientifica e outra religiosa. O criacionismo e o evolucionismo são duas propostas contraditórias que dizem respeito à ocorrência temporal de um fenômeno: a origem do homem. A primeira, criacionista radical, adotada pela teologia judaico-cristã, foi expressa com surpreendente precisão pelo bispo anglicano de Armagh, Usher, no final do século XVII, que decidiu, baseado em textos bíblicos, que o mundo tinha sido criado precisamente no ano 4004 AC, juntamente com todas as espécies tal como existem atualmente. A segunda, o evolucionismo, adotada pela ciência, propõe que o universo surgiu há cerca de mais ou menos 13 bilhões de anos atrás, a vida em nosso planeta, com suas formas mais primitivas de organismos unicelulares, há cerca de 3.5 bilhões de anos.

Desde então, até a atualidade, através de inumeráveis transformações e algumas extinções em massa, chegamos a cerca de 30 milhões de espécies de seres vivos, apesar de, até o momento, apenas 1.5 milhão terem sido descritas. Mais impressionante que este número de espécies existentes, é que estes 30 milhões de espécies atualmente existentes representam apenas cerca de 0.1% das espécies que existiram na Terra. Isto significa que cerca de 99.9% de todas as espécies que habitaram o globo foram extintas.

Parimélon, agora ciente de tudo que o homem sabe e deseja, volta-se as suas próprias dúvidas e observações. Ele percebe que a verdadeira questão humana é a conciliação da razão e fé. Desde os primeiros momentos da humanidade o homem busca a sua razão de existir. Sua breve existência não satisfaz seu pensamento. Não há lógica que um ser tão extraordinariamente complexo, tenha uma existência tão efêmera. Tudo que vem do homem é mais duradouro que ele. Sua arte, sua escrita, seus bens, sua casa... Tudo fica e ele vai... Mais para onde ele vai? A morte é o fim? Que sentido existe em viver e morrer, diante da eternidade do universo? Diante dessas perguntas o homem, sem conseguir respostas, criou seus mitos e deuses. Foi assim desde o início, o Homem procurou criar seres extraordinários e imortais, poderosos e controladores de sua existência. Só assim faria certo sentido. Um mínimo de esperança. Ele fazia parte de algo maior, ele era um instrumento nas mãos de seu deus, ou deuses.

Parimélon percebe que a questão humana é a sua própria, apenas os motivos são invertidos. Enquanto o homem não vê sentido na finitude e busca a razão de sua existência, ele não vê sentido na eternidade e busca também a razão de sua existência. Sua busca começa do macro em direção ao micro. O Homem parte do micro em busca do macro. O homem num certo momento encontrou na fé, uma razão para sua existência. Ele agora encontra no homem uma razão para a sua própria. Seria ele, a criação do homem? Teria sido essa fé a sua origem? Seria ele apenas o reflexo dessa crença coletiva?

De certa forma, o seu “despertar” coincide com a origem do homem. A sua consciência parece ter surgido junto com o homem. Mas sendo ele o todo, não poderia ser uma criação da parte. Sendo ele o todo e sempre existido, como não tinha consciência disto? Era ele o Deus da humanidade? Se fosse poderia interferir, modificar, interagir, mas não pode... Então não pode ser Deus. Mas, se não é Deus não poderia ser tudo. Ele é tudo e o todo. Então Deus está nele, mas Deus não existe nele. Logo Deus não existe nem como todo, nem como parte. Se deus não existe, ele também não existe. Então ele só pode existir em razão do homem. Se ele só existe em razão do homem ele vem do homem. Ele é então fruto do homem e da sua fé. Ele finalmente encontrou sua resposta: ele existe apenas para satisfazer a necessidade do homem de justificar sua existência. Sua eternidade é o desejo humano de sua própria eternidade. Parimélon gostaria de partilhar sua descoberta com o homem, mas não pode se comunicar com o homem. Apenas o homem pode interferir em Deus. Deus não pode interferir no homem. O homem criou o mecanismo de bloqueio entre eles. Só do homem parte a iniciativa e jamais de Deus. O homem se certificou que Deus jamais pudesse interferir na vida do homem. Diante dessa impossibilidade, Parimélon é apenas observador, não pode atuar na experiência humana. Todos os seus poderes foram conferidos pelo homem e só lhe é permitido o que o homem determina. Não lhe resta alternativas, senão a observação.

Parimélon agora sabe que sua existência faz sentido. Sua solidão definitivamente acabou. Ele sabe que um dia a humanidade vai desaparecer e com ela desaparecerá a sua consciência. Mas isso não importa. Quem sabe em outras galáxias, outras vidas surgirão, e ele renasça na consciência coletiva destes povos... Não importa! ele é o tudo e o todo, sempre existirá de uma forma ou de outra... Seja consciente ou inconsciente, ele é e sempre será eternamente! Essa é a certeza de Parimélon, o Deus da humanidade.



Fim?

Encontrará um dia, o homem, as respostas as suas indagações?


Descobrirá finalmente a razão de sua existência?


Manoel Nogueira.

3 comentários:

idade_da_pedra disse...

Visão engraçada da coisa:)
Não estou nada a ver o Tudo preocupado com a razão da sua existência, mas está bem, pode ser que sim. Diria que um Tudo assim é apenas uma das partes constituintes do TUDO. Esse não se preocupa com nada, acho eu :)
Não consigo distinguir a humanidade das outras espécies, em nada, muito menos em termos de consciência. Quando olho para os meus gatos acho que eles sabem muito mais do que eu, que estão em permanente harmonia com TUDO.
Há que haver uma razão para a existência do homem?
A mim fascina-me a Vida. Porque é que a Vida faz tudo para se manter? Que mecanismo possui ela para fazer isso? Nós, seres vivos, andamos aqui com a intenção única de manter a Vida, ou não é. Para a Vida o indivíduo tem pouca importância. Cada um deles existe para manter a manter

Cerberus disse...

Pois é..."a mim fascina-me a vida, porque a vida faz tudo para se manter?"...

Não dá para vivermos sem perguntar porque existimos, me parece ser esse o marco da própria consciência existencial do homem. Só existo quando me pergunto porque existo...

idade_da_pedra disse...

Pois, isso é talvez um estadio inicial da dúvida: porque é que eu existo. Depois de muito matutanço nisso, a dúvida na minha cabeça passou a ser porque é que existe vida. Porque eu, e o resto da humanidade existe pela mesma razão que existem todas as outras formas de vida, parece-me a mim. Não me distingo, não me dou mais importância do que a que dou a uma bactéria, por exemplo :)
Porque é que existe vida é que eu gostava de saber.
Às vezes parece-me a mim, que a nossa mente "ruidosa" nos impede de entender coisas que para os outros animais serão muito mais óbvias. É esse ruído da mente que tanto nos faz "existencializar", acho eu. Enfim, mas eu não sou filósofa, sou pediatra e talvez por isso, por ver bebés, ou seja seres humanos ainda em estado natural, sem ruído da mente, é que tenho estas ideias sobre a mente humana. Eu vejo-os depois crescer, vejo os efeitos da instalação do programa sociedade ocidental sec XXI naquelas mentes, vejo o ruído da mente a começar a aparecer; é um programa altamente ruidoso e castrador de sentidos... Esta sociabilização é um trabalho muito elaborado, cansativo e anti-natura, que entra muitas vezes em choque com o sistema operativo de sobrevivência que vinha instalado à nascença. Talvez por isso, mais tarde nos sintamos tão afastados da mãe natura que andemos sempre sem perceber o porquê da nossa existência...
Teorias de pediatra da Idade da Pedra :)