quarta-feira, 9 de agosto de 2017

EFEITO COLATERAL





Hoje, fitando o tempo
Sentado na varanda da memória
Me vejo refletido na loucura
Do mendigo que me acena
E já não é lembrança
O que me faz sorrir
É a vontade insana
Travestida de história
Que a mente já não sóbria
Constrói com os retalhos
Dos sonhos ou dos atos...
Não importa mesmo
Se é fato ou retrato de uma ilusão
Meu desejo de juventude
Não distingue o ato real
Apenas desfruta a emoção
Que engana os sentidos
E acaricia o coração.

Manoel N Silva

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Jóia falsa



Fitar os olhos
De quem já foi o oceano
E simplesmente descobrir
Que já não existe sequer olhar
Que eu apenas desfolho a visão
No imenso vazio, ouvindo o som
De um passado calado
No olho de um velho deserto
E se me faço menino
Te encontro silêncio opaco
Numa fotografia amarelada
Ou se te refaço na ilusão
De uma noite comprada
No brilho falso de uma jóia de aluguel
Me deparo com o ridículo do ato
Ao fitar o céu de vidro
Desse paraíso de lata.

Manoel N Silva.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Alice no país dos idiotas...





Não consigo mais verbalizar meus sentimentos de forma coerente e coesa, a respeito da atual situação política e econômica no nosso país. É que não existe coerência e nem coesão nas impressões que me chegam. O Brasil parece viver um conto de Kafka ao contrário, acrescido dos absurdos camusianos e das tragédias e comédias gregas clássicas. Nada faz sentido se não nos colocarmos como crentes em teorias conspiratórias e armações mirabolantes, dignas dessas obras que misturam misticismo e tecnologia, tão ao gosto popular!
Me sinto inserido em um cenário de GOT, vivendo em um reino tropical em que o tempo endoidou, governado por um Cesare Borgia, assessorando por Maquiavel e tendo como chefe do Parlamento o rei dos ladrões e, para completar o pesadelo, o ministro da justiça é Rainha Vitória e o Supremo é composto por juízes da inquisição espanhola.
Mas, se tudo isso não bastasse para convencer-me de que vivo em uma realidade alternativa ou que estou perdendo o juízo, nosso Presidente, denunciado pelo MP, por corrupção passiva e prometido de mais duas denúncias, se cercou de outros tantos denunciados e montou uma central de ofertas e favores a parlamentares para que o salvem do processo no STF, aumentou impostos contrariando o pato amarelo da paulista e a gasolina foi reajustada em 0,40 centavos, na certeza de que o povo brasileiro, que o reprova em 94% de sua totalidade, compreenderia perfeitamente...
Em outras paragens, lá no reino do agro, um filho de desembargadora é preso com 129 kg de maconha e cerca de 270 munições, é devidamente colocado em liberdade. Mas, claro, o que são 129 quilos de maconha para o consumo pessoal do jovem dependente? Nada, bobagem! e a munição? Besteira, era para prática de tiro ao alvo...
Já no reino dos negros, um cara preso com um vidro de pinho sol, o qual usava para lavar carros, foi preso em um protesto em 2013 e considerado perigosíssimo terrorista, foi condenado a 11 anos de prisão e teve todos os pedidos de prisão domiciliar negados...muito justo nesse país dos contos fantásticos!
Lula condenado, coincidentemente a 9 anos e meio de prisão, em um processo de recebimento de propina, cujo destino teria sido para reformas em um tríplex no Guarujá, tem seus bens bloqueados, no entanto, por lógica kafkiana, o tríplex não entrou no bloqueio.
Só me resta a esperança de eu acorda na ilha de Lost ou, quem sabe, me aparece um Morpheus, nos meus sonhos, com uma pílula vermelha para me salvar da Matriz!

Manoel N Silva.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SERIA A CLASSE MÉDIA UM MONSTRO ANENCÉFALO?




Dizem-me os mais especializados, que a Classe média quer ser protagonista, determinar os rumos dessa nação, como grande pilar e responsável pela geração das riquezas desse pais, que ela realmente é.
Mas, pergunto eu, que protagonismo? As medidas tomadas e as que esse governo anuncia, são todas em detrimento da classe média. Apenas os grandes empresários de setores agroindustrial, educação, saúde e as instituições financeiras, serão beneficiados. O grosso da indústria brasileira, onde estão empregados a grande maioria dos executivos que compõem a classe média, será penalizado com essas medidas, principalmente o congelamento de gastos públicos, que é o grande alavancador da pequena e média indústria além de ser um dos principais, senão o principal consumidor no ramo de serviços, onde se concentram outra grande parcela dos componentes da classe média, os profissionais liberais. Com esse teto fixado esse setor será, talvez, o mais prejudicado!  Só se for o protagonismo de bancar o palhaço, servir de massa de manobra para sustentar e manter as grandes fortunas e os grandes conglomerados de comunicação nesse país.
O problema é que os defensores (e principais beneficiados) costuram seus argumentos em cima de teorias econômicas aplicadas a situações ideais, sem nenhum referencial na realidade brasileira. Essa ladainha toda sendo cantada noite e dia nos principais telejornais, acompanhadas de lindos sorrisos e caras ainda mais bonitas e escritas em primeira página em jornais e revistas, acabam por convencer aqueles que serão os mais prejudicados, que eles estão sendo os beneficiários. Além de passarem a falsa ideia de que os governos anteriores são os grandes culpados de tudo, e que agora tudo será um céu de brigadeiro, basta apenas que o congresso aprove as medidas e que o povo (classe média), tal qual um bando de carneiros, aplauda e sacramente! Mas, carneiro é para sacrifício, já dizia o santo livro, não é mesmo?
Outrossim, me dizem também que a classe média tem medo da ascensão da classe pobre. Só não compreendo o porquê desse medo. Ele é absurdo, toda e qualquer elevação da condição do pobre, vai diretamente e imediatamente refletir positivamente na classe média. Isso é básico em qualquer teoria econômica. Um amigo me disse que a Classe média tem sonhos de que é rica!
Pois é, ledo engano, ela não é rica e quando faz o jogo dos ricos, condena parte de si mesma a ser pobre. Não compreendo essa cegueira... Me pergunto diariamente o que é que essas pessoas veem, enxergam, que tipo de representação elas fazem para construir essa realidade delas? Culpam os pobres por elegerem maus políticos, mas, são exatamente os representantes da classe média que sustentam as políticas públicas e são esses mesmos políticos, em sua maioria, que apoiam medidas que sempre resultam em cortes na carne da classe média e não na carne gorda e bem cuidada dos ricos.
Além do que, discordo totalmente de que os pobres sejam despolitizados, e nem são a maioria. Não dentro da nossa divisão social. Eles se organizam, lutam por direitos, se associam muito mais do que a classe média, e enfrentam fisicamente o aparato estatal, visto que não têm escolhas. Eles compreendem sua condição e lutam para sair dela. Também os miseráveis e os marginais se colocam dentro de suas realidades.
Dessa forma, o que parece, é que apenas a grande maioria do que chamamos classe média, aliena-se e absorve os ideais dos mais ricos. Ela, exatamente a mais vulnerável das classes, a única sem qualquer proteção quanto aos rumos tomados pela economia, e que é justamente ela, a primeira a sofrer os efeitos de qualquer crise, seja econômica, seja política, porque ela não percebe isso? Por que é que são exatamente esses da classe média os que mais se distanciam do real e apoiam seus algozes?
Vejamos o caso da PEC 241, quem realmente vai perder com ela? O pobre? Não, o pobre não tem acesso à educação, moradia, infraestrutura, está fora do espectro abrangido por essas medidas, ele vai apenas permanecer onde está. A pobreza vai perder a possibilidade de ascensão. Quem vai sofrer é a classe média hoje definida, e talvez, nem sejam aqueles que ascenderam da pobreza, visto que diante da experiência e consciência da situação, estarão preparados para enfrentar essas medidas. No entanto, a classe média tradicional sofrerá com mais vigor e, certamente, boa parte, descerá para a classe pobre, ou achatará sua condição atual, perdendo privilégios que hoje detém. Eles não percebem isso? Como eles pensam a sociedade e o sistema econômico que eles sustentam? Será que eles não percebem que não foi a classe média que recuou e sim o pobre que avançou? E que se eles compararem os resultados dessa ascensão de parte da pobreza à classe média, chegarão a única conclusão lógica possível, ou seja, de que só trouxe benefícios ao conjunto da sociedade?

Manoel N. Silva