sábado, 15 de junho de 2019

ESCURIDÃO


Eu compreendo o medo

E o desejo de ser o que não é

Sinto no rosto o hálito do chumbo

Na fumaça esquálida de um estampido

E se meu desejo de paz

Se perde entre os dentes trincados

Diante do desespero agonizante

De um jovem que parte sem cumprir

Nem mesmo sua sina

E a sua assassina mão, menos que menino,

Guiada pela contingência e não pela ação

Se faz discussão de culpa e punição

Meu pecado é a razão.

Eu não aceito o dedo divino

E nem o tribunal moral

Que encontra no ato puro

De um anjo sem asas e sem casa

A verdade indiscutível de um sentido

Para além do real, imortal delírio

De um Deus sem perdão e sem amor

Eu prefiro a mentira da compaixão

A crença ateia da inocência sem Deus

E a culpa velada de um povo ciente

De seu desejo e poder

Que transforma e distorce qualquer lei

Desde que lhe seja confortável.



Manoel N Silva

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A LAMPARINA...






É quase noite, sentada na beirada da rede, olhando o teto de palha, onde uma aranha desenhava círculos com sua teia fina e brilhante, sentido no corpo o suor gotejar e o peito arfar no ritmo descompassado da sua respiração entrecortada, aqui e ali, por um pigarro provocado pela falta de umidade, que ressecava a boca e irritava a garganta. Os olhos lacrimejantes agarrando-se aquela visão. Enquanto o mundo lá fora avermelhava-se em busca da escuridão, seus dedos  vasculham o entorno em busca da caixa de fósforos e da velha lamparina a querosene, que jazem em uma mesinha no canto do quarto, ao alcance de suas mãos.
Aos poucos, o vermelho escuro, quase negro, que entra pelas frestas da parede de barro e pela pequenina janela na parede oposta a mesinha, quase como um furo quadrado ao lado da porta de talos de carnaubeira, ligados um a um por cordões, formando uma esteira que cobre a abertura que leva a sala, vai fazendo desaparecer a teia e a aranha, dando lugar a uma semiescuridão angustiante e pesada. Suas mãos encontram finalmente a caixa de fósforos, e ávidas por luz, retiram um palito e riscam-no, protegendo a chama nas mãos em concha e a dirigem para o pavio da lamparina, acendendo-o e lançando uma claridade bruxuleante seguida por  um cheiro nauseante de querosene e uma pequena quantidade de fumaça escura, que aos poucos, vai diminuindo na mesma proporção que a chama aumenta até torna-se um fio branco   que sobe  a partir da chama e ao sabor do mormaço que vez ou outra, provoca piruetas e desenhos  que se refletem na parede  áspera, como um balé macabro.
Um sorriso feio em uma boca banguela, ornada de apenas um dente, grande e cariado, se abre em uma demonstração de prazer, seus olhos fundos, quase invisíveis nesse ambiente pouco iluminado, parecem pequeninas luzes em buracos na parede, como se fossem vagalumes ali pousados, me olhando com a ternura que jamais conhecerei em toda a minha vida, cabelos brancos e rareados descem como fios de luzes em torno de sua cabeça, suas faces brancas como a neves, ponteadas de manchinhas escuras, seus braços finos e igualmente ponteados de manchas escuras na pele de neve, iluminada por aquela luz quase irreal, seus joelhos pequenos e suas pernas miúdas que terminam em pés igualmente pequenos, dentro de um chinelo barato.
Agora é o desejo e o vício que movem suas mãos magras em direção a um cachimbo de barro, igualmente repousando na mesinha, juntinho a um saquinho de fumo de rolo, previamente, cortado e picado e que vão, ambos, parar entre seus dedos. Em um ritual que conheço de cor e nunca esquecerei, o fumo picado vai parar dentro do cachimbo e transforma-se em fumaça que enche sua boca em um movimento que lembra um fole, vai trazer-lhe um pouco de alegria e prazer... Ela ficava ali, balançando-se na rede, pitando seu cachimbo e eu olhando-a, deitado na esteira de palha de carnaúba, e lendo meus cordéis...

Manoel N Silva

sábado, 18 de maio de 2019

E O FAMIGERADO TEXTO...




                


          Jair Bolsonaro orquestra mais uma farsa populista, aciona a rede zap zap para compartilhar texto alarmante e agourento, numa clara tentativa de angariar defensores e apoiadores, principalmente entre os de extrema direita e olavistas. Isso certamente será um tiro no pé, os militares já estão de saco cheio com Olavo de Carvalho e as sandices de seus seguidores. Durante a campanha já foi difícil segurar aliados em virtude das loucuras e bobagens que esse pessoal da extrema direita costuma reivindicar, entre elas, a volta da ditadura militar...
No Congresso Nacional, que foi colocado em cheque, no texto, certamente haverá resistência e consequentemente dificuldades para aprovar suas emendas e medidas. Bolsonaro ingenuamente acredita que política se faz com chantagem emocional e frases de efeito e que os políticos, empresários e a sociedade organizada, podem ser enganados e manipulados, como o são seus fieis eleitores e seus delirantes seguidores.
Jair Bolsonaro não compreende que, na presidência, não são arroubos e gritos, acusações e ironias que o manterão lá, e sim ações firmes, medidas que tenham efeito real... Passar mais de vinte anos como deputado à custa dessa estratégia barata, até que é compreensível, mas, felizmente para o Brasil, cargos executivos exigem ações concretas e não pirotecnia, que é a especialidade desse fanfarrão.
Os primeiros efeitos negativos já se fizeram claros nessa segunda-feira, com repercussões negativas e menções a impeachment e renúncia. Comparações com Jânio Quadros e alusões a fragilidade, a falta de pulso do Presidente. Bolsonaro certamente esperava que o texto repercutisse a seu favor, colocando-o como um paladino contra o sistema, um defensor resistente aos “maus” hábitos da velha política... Ledo engano, na realidade, a família enrolada com milicianos e os negócios do número 1 sob a mira do MP, deixam a grande maioria da população indignada e boa parte dos seus eleitores, envergonhados, cabisbaixos e sem ação.
Posso estar enganado, mas a imagem já tão decantada desse mito de barro, corroído pelos erros com a educação e os micos no exterior, entra em fase terminal...

Manoel N Silva

MUITO ALÉM DE MURPHY


O que esperar desse governo, se tudo que ele faz ou é inconsistente, ilógico, pirotécnico e sem efeitos reais ou direcionados a coibir, censurar e controlar? Qual conjunto ideológico de ideias norteia as ações político administrativas desse grupo tão heterogêneo? Qual a corrente econômica que baseia as ações deste governo? Suas ações não contemplam sequer seus aliados, e até os seus mais próximos colaboradores são surpreendidos a todo o momento por recuos, declarações sem nexo e atitudes e medidas que contrariam os interesses do próprio governo?
O que pretende realmente fazer este governo? A impressão que dá é que está esperando alguma coisa acontecer... O que seria? Que tsunami Bolsonaro espera para os próximos dias? Um golpe militar? A renúncia pura e simples para que assuma o vice? Quase cinco meses e nada foi feito, nenhuma medida efetiva no combate a violência, ao desemprego, a corrupção, ao meio ambiente, exportações... Nada!
Um presidente que age como um candidato, que governa com se fosse um dono de padaria, fala de políticas publicas e de estado como se fossem ações de uma dona de casa... Um ministro da casa civil, que compara contingenciamento na educação com economia de pai para comprar vestido de debutante, um ministro da educação que não conhece PNE, LDB, que acredita em marxismo cultural e balbúrdia em universidades, que faz metáforas matemáticas (errôneas) com chocolatinhos para justificar cortes na educação... Bancada no congresso que mais parece uma trupe circense, tão alienada politicamente, quanto o astronauta ministro da ciência e tecnologia que ainda não descobriu que voltou do espaço.
Atores pornôs, jornalistas plagiadoras, anarcomiguxos, loucos e desvairados, gurus analfabetos, filhos mimados, terraplanistas e esquizofrênicos religiosos... Enfim, nosso país é um circo sem picadeiro e os atores políticos e administrativos, são todos canastrões!
A grande imprensa não sabe mais o que fazer, não tem mais argumentos para sustentar essa maluquice geral e se perde entre afagos e pedradas, perde credibilidade e audiência em seus noticiários, o governo negocia com pessoas, esquece as organizações, quebra hierarquias e promove o caos.
Laranjas, rachadinhas, cheques e depósitos inconsistentes nas contas dos filhos e da esposa, motorista milionário, filho genial que triplica valores de imóveis e tem lucros fantásticos... Afinal o que virá por aí?
Será que pode ficar pior?  Parece que sim, decreto de hoje, na prática, acaba com a autonomia das universidades, banco central, etc... Nem Murphy previu isso... O presidente do INEP foi exonerado... Outro!!!


Manoel N Silva

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A DEFINITIVA DESTRUIÇÃO DO MITO



Hoje, direto do Texas, o Presidente Jair Bolsonaro, definitivamente enterra sua reputação e se desfaz diante da grande maioria do povo brasileiro, ao chamar os  estudantes  universitários, secundários, professores e profissionais da educação, que foram as ruas em  todo Brasil, protestar contra os cortes na educação, de “idiotas úteis e dizer que 70% deles não sabem sequer a fórmula da água e servem de massa de manobra para uma minoria imbecil”.

Talvez pareça, para alguns, que seja irrelevante tal declaração, e até seria, concordo eu, se fosse dita por um dos deslumbrados parlamentares eleitos nessa onda pirotécnica proporcionada pela campanha bolsonarista e seus arroubos “mitológicos”, regada a fake news, memes e preconceitos, se fosse um twiter de seus tresloucados filhos ou uma declaração do seu ignóbil guru. Mas não. Essa declaração é fruto do presidente da nação brasileira, pronunciada diante do mundo.

Não é possível que o presidente de uma nação fale tamanha bobagem quando, ao contrário, o mesmo deveria prezar e elevar o respeito aos nossos estudantes, porque seguramente, serão eles a única garantia de um futuro decente, de um país tecnologicamente evoluído e autônomo, capaz de suprir suas demandas nas áreas de comunicação, robótica, medicina e farmacêutica, já que são estes estudantes que foram hoje as ruas, na sua maioria, os grandes responsáveis por pesquisas nessas áreas e em todas as outras, pesquisas como a da pele de tilápia que surge como  uma revolução no tratamento das queimaduras, desenvolvida na UFC e tantas outras nas mais de setenta universidades federais, visto que são nas universidades públicas federais que se desenvolvem a maioria das pesquisas no nosso país.

Portanto, senhores, Bolsonaro derrete, se liquefaz diante dos olhos dos brasileiros e do mundo, enquanto politico e cai por terra qualquer esperança de uma postura de estadista diante dos problemas graves e da perspectiva caótica da nossa economia. Infelizmente, para o povo brasileiro, a inabilidade política desse governo, sua incapacidade de lidar com os diversos, os contraditórios, poderá nos levar, a curtíssimo prazo, a um novo processo de impedimento de um Presidente da República.

Manoel N Silva.