terça-feira, 15 de agosto de 2017

MODERNIDADE, PÓS-MODERNIDADE E REALIDADE.



Copérnico lança os fundamentos ptolomeicos e aristotélicos da antiguidade clássica no vórtice do furacão heliocêntrico que inaugura a chama da modernidade, atiçada de vez por Galilei. Por outro lado, Bacon e Descartes lançam os fundamentos de uma nova ciência cujos métodos seriam certos e indubitáveis, pois se sustentariam nos princípios matemáticos. Pois, como disse Galileu: “a matemática é a linguagem de deus”, portanto, essa nova ciência se propõe a desvendar a natureza e o universo. Descartes decreta a cisão fundamental que necessitava a ciência para correr livremente, o corpo e alma não são “uno”. O corpo não passa de um instrumento do qual a alma se utiliza para movimentar-se. Enfim, o corpo é instrumento da alma. Estão lançadas e fincadas as pedras e as estacas fundamentais da Ciência Moderna!

Pascal, Newton, Kepler... O mundo gira, a terra gira, e o universo não se resume ao Sistema Solar, a ciência avança e promete um mundo onde o homem será seu deus.  O homem moderno não precisa de nada além da sua razão para dominar a natureza e a tudo reproduzir com esse conhecimento infinito que a ciência lhe oferece! Mas nem tudo são flores no caminho da razão... Kant lhe golpeia fortemente, quando lhe impõe certos limites, principalmente no campo do conhecimento! Apesar de todos os ataques e críticas, a razão avança firme implantando  seu império científico.

Acendem-se as luzes  no mundo e a  razão continua soberana e firme, comandando o progresso da humanidade, lhe permitindo criar tecnologias que lhe vão tornando cada vez mais forte e capaz  de dominar o ambiente natural, modifica-lo e até recriá-lo ao seu bem prazer. O iluminismo aponta para a razão como a deusa da liberdade e da paz. A Ciência é humana! A religião se recolhe aos templos, divorcia-se do Estado, recorta-se, reparte-se, busca os novos mundos, enfraquecem politicamente e perdem força moral. “Se Deus está morto, tudo nos é permitido!” dirá, anos mais tarde, Dostoievski, na voz de seu personagem Ivan. Depois dele, Nietzsche se tornará o arauto do humano pós-moderno, na figura impar de Zaratustra, o anticristo moral. A Humanidade avançará na tecnologia e apodrecerá em seus valores morais e suas atitudes niilistas.

Napoleão “liberta” a Europa definitivamente de seu sono metafisico e avança a revolução industrial, as colônias do Novo Mundo, acalantam seus sonhos de liberdade com os hinos iluministas que soam na Europa e  tornam-se nações livres e independentes! O Século XVII se deixa cair em luzes no Século XVIII, que por sua vez, faz brilhar ainda mais a deusa razão e sua mais reluzente filha: A ciência!

O século XIX cai sombrio sobre o iluminado século passado... A Revolução Industrial reconfigurou o mundo e as sociedades, as cidades, as pessoas, derrubou os valores, os costumes e destruiu os modelos sociais fazendo surgir outros. O indivíduo está agora só, apartado dos outros. Uma nova concepção de homem surge, arcabouçado de novas categorias, operário, trabalhador, privado, público... A filha da razão dá a luz às novas filhas que o mundo moderno exige: Sociologia, Psicologia, engenharias diversas e o homem se torna peça de uma grande máquina industrial, mera engrenagem cujo único fim é mantê-la funcionando!

Disso tudo padece o nosso querido século XIX, e o que ele lega para o século XX, além de aviões, tanques e navios de guerra,  é um mundo doente, doente de medo, que perdeu a fé e o rumo. Que não faz sentido e nem tem sentido. O homem que vive nesse mundo é tão sem sentido quanto ele, a sociedade está dividida em duas classes antagônicas e interdependentes, a Europa apodrecida e decadente se perde em conflitos e explode a Primeira Grande Guerra Mundial, uma Guerra sem porque e sem pra onde. Na Europa Oriental os operários aproveitam-se da insatisfação popular e tomam o poder, dividindo o mundo em dois blocos distintos e multiplicando o medo por mil! No Oriente o medo se chama fundamentalismo, no Ocidente ele pode se chamar Capitalismo ou Comunismo, Liberalismo ou Socialismo, mas seja lá, seja cá, ele tem a mesma face e seus frutos são os mesmos em todos os lugares, morte, guerra e violência.

Mas, em meio a isso tudo, a ciência floresce e cresce rápida e faceira, cada vez mais brilhante. O medo é um terreno fértil para o crescimento das telecomunicações e a eletrônica... Mal se tem tempo de limpar os destroços causados pela Primeira Guerra e explode a Segunda, o mundo vai descobrir que  o medo não tem limites e que seu rosto pode ser o rosto de qualquer um, seu vizinho, seu pai, sua mãe, seu irmão... Se Deus esta morto, o homem é seu próprio demônio!

A Europa se despedaça enquanto o mundo treme diante das modernas bombas e mísseis alemães, estarrecidos os homens assistem ao extermínio em massa de judeus, negros, deficientes, prostitutas... Quando nada mais de desgraça podemos imaginar que possa nos acometer, eis que acontece o pior, o homem finalmente virou deus, ele adquiriu o poder de destruir o mundo. O cogumelo maldito floresce em Hiroshima e Nagasaki. O medo assume a forma mais hedionda que o mundo jamais viu.

A semideusa ciência chegou ao seu ápice. O mundo sem rumo e sem esperança se volta contra a mãe razão, ela já não faz sentido, já não é capaz de prover de esperança o homem. O medo é o novo governante da humanidade, colocamos todas as nossas fichas na ciência, vamos conquistar o espaço sideral, se este lar está ameaçado, precisamos buscar novos mundos, precisamos assegurar a sobrevivência humana, a primogênita da razão nos levará lá! Os jovens fazem amor e rasgam os sutiãs, cantam rock e vestem sarongs, queimam incenso e fumam haxixe e ópio, visitam o Nepal e morrem de overdose de sonhos! E ainda acreditam que as flores vencem os canhões e que e melhor fazer amor do que a guerra!

Hitler ressuscitou Deus e o povo judeu ganha seu pedaço de chão. O mundo se divide ainda mais, as ditaduras, os regimes totalitários, os líderes sanguinários se multiplicam pelo mundo afora. Lá no velho oriente as coisas pioram.  O medo agora atende por terrorismo e se veste  com o manto sagrado do fundamentalismo. Aqui do lado Ocidental, ele se chama guerra fria e se esconde atrás de cortinas de ferro e se veste de Imperialismo! Mas, o Século XX, não é um só, ele se multiplica, não cabe em cem anos, ele vai fazer mais. O computador se popularizou com a criação do computador individual e a internet ligou o mundo em redes sociais.  O homem em busca das estrelas, leva junto a guerra, colocou olhos no espaço, pisamos o solo lunar e fizemos a guerra nas estrelas, construímos estações no espaço e, aqui embaixo o muro caiu, o Papa saiu de carro e rodou o mundo, Mandela foi preso. Enquanto isso o papa peregrino levou um tiro na praça e mundo rezou! Se Hitler ressuscitou Deus, Karol Wojtyla o popularizou.

Na Iugoslávia, o sangue correu sem que o mundo se importasse. Lá no golfo pérsico, Irã e Iraque fizeram mais uma guerrinha, Saddam invade o Kuwait  e Israel bombardeou a Faixa de Gaza, depois de atentados palestinos a soldados judeus. Mera rotina... Assim acaba o século XX. Fechamos o segundo milênio do cristianismo não mais com medo da guerra fria ou buscando estrelas, mas sim, legando ao novo milênio o maior dos feitos do homem moderno: Dolly, a ovelha clonada!

O século XXI parecia ser o século da paz, onde  a preocupação do homem  se voltaria para as discussões morais e éticas, finalmente poderíamos ter a paz que tanto almeja a humanidade... Mas, uma vez mais o homem é surpreendido pelo medo irracional e sem sentido, o templo maior do capitalismo ocidental é ferido de morte e o mundo estarrecido assiste ao vivo e em cores as Torres Gêmeas do World Trade Center, sucumbirem sob um ataque terrorista em que dois aviões foram arremessados contra elas, deixando um saldo de mais de 5000 mortos... Bin Laden é o responsável... O Iraque é invadido e finalmente Bush filho concretiza a vingança americana enforcando Saddam. O Iraque não possuía armas químicas!

No país em que o racismo sempre foi um problema sério e o capitalismo tem seu mais forte pilar, um negro é eleito presidente e o sistema financeiro entra em colapso...  Na Líbia, a revolução passa pela rede e Kadafi é deposto e morto, israelenses e palestinos continuam trocando tiros em Gaza...

Manoel Nogueira da Silva.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

EFEITO COLATERAL





Hoje, fitando o tempo
Sentado na varanda da memória
Me vejo refletido na loucura
Do mendigo que me acena
E já não é lembrança
O que me faz sorrir
É a vontade insana
Travestida de história
Que a mente já não sóbria
Constrói com os retalhos
Dos sonhos ou dos atos...
Não importa mesmo
Se é fato ou retrato de uma ilusão
Meu desejo de juventude
Não distingue o ato real
Apenas desfruta a emoção
Que engana os sentidos
E acaricia o coração.

Manoel N Silva

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Jóia falsa



Fitar os olhos
De quem já foi o oceano
E simplesmente descobrir
Que já não existe sequer olhar
Que eu apenas desfolho a visão
No imenso vazio, ouvindo o som
De um passado calado
No olho de um velho deserto
E se me faço menino
Te encontro silêncio opaco
Numa fotografia amarelada
Ou se te refaço na ilusão
De uma noite comprada
No brilho falso de uma jóia de aluguel
Me deparo com o ridículo do ato
Ao fitar o céu de vidro
Desse paraíso de lata.

Manoel N Silva.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Alice no país dos idiotas...





Não consigo mais verbalizar meus sentimentos de forma coerente e coesa, a respeito da atual situação política e econômica no nosso país. É que não existe coerência e nem coesão nas impressões que me chegam. O Brasil parece viver um conto de Kafka ao contrário, acrescido dos absurdos camusianos e das tragédias e comédias gregas clássicas. Nada faz sentido se não nos colocarmos como crentes em teorias conspiratórias e armações mirabolantes, dignas dessas obras que misturam misticismo e tecnologia, tão ao gosto popular!
Me sinto inserido em um cenário de GOT, vivendo em um reino tropical em que o tempo endoidou, governado por um Cesare Borgia, assessorando por Maquiavel e tendo como chefe do Parlamento o rei dos ladrões e, para completar o pesadelo, o ministro da justiça é Rainha Vitória e o Supremo é composto por juízes da inquisição espanhola.
Mas, se tudo isso não bastasse para convencer-me de que vivo em uma realidade alternativa ou que estou perdendo o juízo, nosso Presidente, denunciado pelo MP, por corrupção passiva e prometido de mais duas denúncias, se cercou de outros tantos denunciados e montou uma central de ofertas e favores a parlamentares para que o salvem do processo no STF, aumentou impostos contrariando o pato amarelo da paulista e a gasolina foi reajustada em 0,40 centavos, na certeza de que o povo brasileiro, que o reprova em 94% de sua totalidade, compreenderia perfeitamente...
Em outras paragens, lá no reino do agro, um filho de desembargadora é preso com 129 kg de maconha e cerca de 270 munições, é devidamente colocado em liberdade. Mas, claro, o que são 129 quilos de maconha para o consumo pessoal do jovem dependente? Nada, bobagem! e a munição? Besteira, era para prática de tiro ao alvo...
Já no reino dos negros, um cara preso com um vidro de pinho sol, o qual usava para lavar carros, foi preso em um protesto em 2013 e considerado perigosíssimo terrorista, foi condenado a 11 anos de prisão e teve todos os pedidos de prisão domiciliar negados...muito justo nesse país dos contos fantásticos!
Lula condenado, coincidentemente a 9 anos e meio de prisão, em um processo de recebimento de propina, cujo destino teria sido para reformas em um tríplex no Guarujá, tem seus bens bloqueados, no entanto, por lógica kafkiana, o tríplex não entrou no bloqueio.
Só me resta a esperança de eu acorda na ilha de Lost ou, quem sabe, me aparece um Morpheus, nos meus sonhos, com uma pílula vermelha para me salvar da Matriz!

Manoel N Silva.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SERIA A CLASSE MÉDIA UM MONSTRO ANENCÉFALO?




Dizem-me os mais especializados, que a Classe média quer ser protagonista, determinar os rumos dessa nação, como grande pilar e responsável pela geração das riquezas desse pais, que ela realmente é.
Mas, pergunto eu, que protagonismo? As medidas tomadas e as que esse governo anuncia, são todas em detrimento da classe média. Apenas os grandes empresários de setores agroindustrial, educação, saúde e as instituições financeiras, serão beneficiados. O grosso da indústria brasileira, onde estão empregados a grande maioria dos executivos que compõem a classe média, será penalizado com essas medidas, principalmente o congelamento de gastos públicos, que é o grande alavancador da pequena e média indústria além de ser um dos principais, senão o principal consumidor no ramo de serviços, onde se concentram outra grande parcela dos componentes da classe média, os profissionais liberais. Com esse teto fixado esse setor será, talvez, o mais prejudicado!  Só se for o protagonismo de bancar o palhaço, servir de massa de manobra para sustentar e manter as grandes fortunas e os grandes conglomerados de comunicação nesse país.
O problema é que os defensores (e principais beneficiados) costuram seus argumentos em cima de teorias econômicas aplicadas a situações ideais, sem nenhum referencial na realidade brasileira. Essa ladainha toda sendo cantada noite e dia nos principais telejornais, acompanhadas de lindos sorrisos e caras ainda mais bonitas e escritas em primeira página em jornais e revistas, acabam por convencer aqueles que serão os mais prejudicados, que eles estão sendo os beneficiários. Além de passarem a falsa ideia de que os governos anteriores são os grandes culpados de tudo, e que agora tudo será um céu de brigadeiro, basta apenas que o congresso aprove as medidas e que o povo (classe média), tal qual um bando de carneiros, aplauda e sacramente! Mas, carneiro é para sacrifício, já dizia o santo livro, não é mesmo?
Outrossim, me dizem também que a classe média tem medo da ascensão da classe pobre. Só não compreendo o porquê desse medo. Ele é absurdo, toda e qualquer elevação da condição do pobre, vai diretamente e imediatamente refletir positivamente na classe média. Isso é básico em qualquer teoria econômica. Um amigo me disse que a Classe média tem sonhos de que é rica!
Pois é, ledo engano, ela não é rica e quando faz o jogo dos ricos, condena parte de si mesma a ser pobre. Não compreendo essa cegueira... Me pergunto diariamente o que é que essas pessoas veem, enxergam, que tipo de representação elas fazem para construir essa realidade delas? Culpam os pobres por elegerem maus políticos, mas, são exatamente os representantes da classe média que sustentam as políticas públicas e são esses mesmos políticos, em sua maioria, que apoiam medidas que sempre resultam em cortes na carne da classe média e não na carne gorda e bem cuidada dos ricos.
Além do que, discordo totalmente de que os pobres sejam despolitizados, e nem são a maioria. Não dentro da nossa divisão social. Eles se organizam, lutam por direitos, se associam muito mais do que a classe média, e enfrentam fisicamente o aparato estatal, visto que não têm escolhas. Eles compreendem sua condição e lutam para sair dela. Também os miseráveis e os marginais se colocam dentro de suas realidades.
Dessa forma, o que parece, é que apenas a grande maioria do que chamamos classe média, aliena-se e absorve os ideais dos mais ricos. Ela, exatamente a mais vulnerável das classes, a única sem qualquer proteção quanto aos rumos tomados pela economia, e que é justamente ela, a primeira a sofrer os efeitos de qualquer crise, seja econômica, seja política, porque ela não percebe isso? Por que é que são exatamente esses da classe média os que mais se distanciam do real e apoiam seus algozes?
Vejamos o caso da PEC 241, quem realmente vai perder com ela? O pobre? Não, o pobre não tem acesso à educação, moradia, infraestrutura, está fora do espectro abrangido por essas medidas, ele vai apenas permanecer onde está. A pobreza vai perder a possibilidade de ascensão. Quem vai sofrer é a classe média hoje definida, e talvez, nem sejam aqueles que ascenderam da pobreza, visto que diante da experiência e consciência da situação, estarão preparados para enfrentar essas medidas. No entanto, a classe média tradicional sofrerá com mais vigor e, certamente, boa parte, descerá para a classe pobre, ou achatará sua condição atual, perdendo privilégios que hoje detém. Eles não percebem isso? Como eles pensam a sociedade e o sistema econômico que eles sustentam? Será que eles não percebem que não foi a classe média que recuou e sim o pobre que avançou? E que se eles compararem os resultados dessa ascensão de parte da pobreza à classe média, chegarão a única conclusão lógica possível, ou seja, de que só trouxe benefícios ao conjunto da sociedade?

Manoel N. Silva