domingo, 22 de outubro de 2017

SOBRE O ARTIGO DE HANNA ARENDT, “ A CRISE DA EDUCAÇÃO NA AMÉRICA”





“A Crise da Educação”, artigo sobre a crise na educação na América, tratada por Hanna Arendt, bem poderia ser “a crise na educação brasileira” dada a semelhança com que os problemas nacionais são refletidos nesse artigo escrito a mais de meio século.
Mas, essa atualidade que encontramos nesse artigo, só comprova uma afirmação feita por Hanna, neste mesmo artigo, de que a crise na educação na América não teria características exclusivas aos EUA, e nada impediria que em um futuro previsível, ela acontecesse em qualquer outro país ou continente.
Em um primeiro momento, Hanna Arendt nos diz que a crise na educação tem como essência o nascimento. Ou seja, o nascimento de seres humanos que aportam diariamente no mundo. Geração após geração, esses pequenos seres precisam ser apresentados e inseridos nesse mundo, para que possam nele viverem. Essa mediação tem como protagonistas, os adultos. São eles que precisam assumir essa condução, através de ações educadoras e protetoras, pais, professores e autoridades, precisam ensinarem e protegerem esses pequeninos, conduzindo-os por esse mundo antigo e quase sempre fora dos “gonzos”, para que esses possam modifica-lo e recolocarem-no no caminho devido.
Diante desse desafio, a Educação, pilar fundamental na formação dessas crianças e jovens, se encontra em crise e, como antes mencionado, não é uma crise ligada simplesmente a uma questão territorial, com características intrínsecas a um país. Essa crise na educação tem raízes universais, fincadas nos aspectos fundamentais da modernidade.
No que diz respeito aos fundamentos modernos, os principais consequentes da crise na educação se referem aos aspectos da privacidade e perda de autoridade, fenômenos que perpassam nosso mundo moderno. Essa imersão do privado no público, fez com que adultos e crianças perdessem o que antes era o seu porto seguro, aquela fortaleza entre quatro paredes, onde nos protegíamos e as nossas crianças dos olhos do público. As guerras e as transformações sociais e políticas, a reorganização mundial e todos os problemas que daí advém, atingem a educação em todo o mundo e a crise se manifesta em diferentes nuances em cada nação.
Na América, essa crise se torna política, avança e se manifesta em cada cidadão leigo, visto que, na América, essa dimensão está intrinsecamente ligada a educação. A educação desempenha aqui um papel importantíssimo. Sendo a América um país de imigrantes, só a educação dos filhos dos imigrantes, já que na visão de Arendt, não é possível educar adultos, pode fundir as diversas culturas e etnias, não completamente, porém numa contínua jornada.
Não é também uma questão de imaturidade da Nação americana, haja visto que é nesse país que as pedagogias mais modernas foram acriticamente e imediatamente implantadas, portanto, no que diz respeito a educação é na América que temos o de mais atual e moderno em matéria de procedimentos pedagogos. Dados esses aspectos gerais e particulares da crise americana da educação, Hanna Arendt vai nos fazer mergulhar nela, e descortinar as grandes medidas adotadas Na Educação que, segundo ela, são as principais causas da crise:
A primeira delas é a ideia de um mundo da criança, uma sociedade das crianças, até certo ponto autônoma e, consequentemente, podendo se auto gerir. Nessa perspectiva, o adulto se torna um mero expectador do desenvolvimento da criança. Dentro dessa ideia outro ponto é que a criança não é tomada individualmente e fica à mercê do grupo das crianças, enquanto que os adultos estão à parte, impossibilitados de intervir. No grupo a criança está pior do antes, pois está subjugado a autoridade de um grupo e um grupo de crianças, por assim ser, não pode dialogar exatamente por serem crianças, os adultos, separados, destituídos da autoridade, só podem observar e torcer para que não aconteça o pior. Libertada da autoridade do adulto a criança se encontra agora sob a tirania da maioria.
A segunda é a ideia basilar é diretamente ligada ao ensino. As psicologias modernas e as doutrinas pragmáticas tornaram a pedagogia uma ciência do ensino geral, ou seja, um professor não é mais aquele que domina uma disciplina, que detém autoridade intelectual sobre o que ensina. Ele agora é um “monitor” que sabe um pouquinho de tudo, ou seja, não domina um conhecimento específico, uma área. Dessa maneira, a formação dos professores foi negligenciada em seus aspectos específicos, frequentemente ele sabe pouco mais que seus alunos, principalmente no EM. Em função disso o aluno está entregue aos seus próprios meios e o professor perdeu a sua autoridade intelectual, o que ele tinha de mais legitimo.
A terceira ideia-base vem justamente da aplicação prática de uma moderna teoria da aprendizagem, que nada mais é do que a base substancial da modernidade e do pragmatismo: a ideia de que não se pode compreender e saber senão aquilo que se faz por si mesmo, dessas duas ideias anteriores.  Na realidade esse é um princípio primitivo, que é substituir o aprender pelo fazer. Este é um argumento muito usado pelos pais que querem que seus filhos parem de estudar para trabalhar, por exemplo. Dessa forma, pouco importa se o professor domina sua disciplina, já que seu papel é de mero “instrutor”, ele não vai transmitir conhecimentos e sim técnicas de aprendizagem, habilidades. A ideia não é passar um saber, mas, condicionar um "saber-fazer".
Hanna concluiu dizendo que a crise atual na América, é fruto da consciência da natureza destrutiva desses três eixos bases e da tentativa de mudar totalmente esse sistema, mas, segundo ela, o que está se fazendo é restaurar a autoridade e retornar ao aprendizado, substituindo o fazer pelo aprender e o jogar pelo trabalhar.
Por isso, no início desse texto, disse que poderia hoje, ser republicado com o título de “A Crise na Educação Brasileira”. O que vejo aqui não é uma crise americana dos anos 50, o que enxergo nesse artigo é a realidade brasileira, a história se repetindo, os mesmos erros sendo cometidos e cada vez mais, o “Joãozinho não sabe ler”.

Manoel N Silva

sábado, 9 de setembro de 2017

E AGORA, TUCANOS?

  




    
            Após um ano da saída de Dilma do governo, ainda não vi nenhum efeito real de mudança das coisas no Brasil, ou melhor, de mudanças que efetivamente são favoráveis aos brasileiros da classe média e pobre, ou de empresas de médio e pequeno porte. Todas as ações favorecem o capital especulativo, bancos e grandes empresas e conglomerados e mega latifúndios.
            Infelizmente o que constato é uma crescente queda no emprego formal, um aumento significativo no fechamento de pequenos negócios regulamentados e um número cada vez maior de pessoas na informalidade.
            Enfim, o Governo arrochou, cortou, vendeu ou pretende vender estatais, precarizou boa parte das instituições educacionais, de segurança e fortaleceu comunicações, transportes e latifúndios. Cortou investimentos e fecha acordos recessivos com os estados endividados. Despreza o meio ambiente e ameaça cortar direitos adquiridos pelas populações quilombolas e indígenas, reduz reservas ambientais e ameaça liberar e legalizar invasões a terras protegidas, favorecendo as grilagens e punindo a natureza.
          Como se isso tudo já não fosse o bastante, o rombo nas contas públicas só aumenta, a previsão aumentou em cerca de 20 bilhões, o salário mínimo previsto teve redução em R$ 10,00. Boa parte da cúpula do governo, inclusive o Presidente, ou está denunciada ou pode vir a ser denunciada. O combate a corrupção, grande bandeira levantada pelos milhares de manifestantes nos domingos da paulista, perdeu força e cambaleia ferida de morte pelos articuladores palacianos em acordos no parlamento e no judiciário, como revelam as gravações da JBS...
           Diante de tal conjuntura, não me espanta nem um pouco que o povo, cansado desse jogo marcado, onde todos são cúmplices e culpados, se jogue nos braços de Lula, ignorando qualquer suposto crime, visto que de fato, o que existe de concreto e positivo, são os atos e fatos ocorridos nos últimos 12 anos de governo petista.


Manoel N Silva

terça-feira, 15 de agosto de 2017

MODERNIDADE, PÓS-MODERNIDADE E REALIDADE.



           Copérnico lança os fundamentos ptolomeicos e aristotélicos da antiguidade clássica no vórtice do furacão heliocêntrico que inaugura a chama da modernidade, atiçada de vez por Galilei. Por outro lado, Bacon e Descartes lançam os fundamentos de uma nova ciência cujos métodos seriam certos e indubitáveis, pois se sustentariam nos princípios matemáticos. Pois, como disse Galileu: “a matemática é a linguagem de deus”, portanto, essa nova ciência se propõe a desvendar a natureza e o universo. Descartes decreta a cisão fundamental que necessitava a ciência para correr livremente, o corpo e alma não são “uno”. O corpo não passa de um instrumento do qual a alma se utiliza para movimentar-se. Enfim, o corpo é instrumento da alma. Estão lançadas e fincadas as pedras e as estacas fundamentais da Ciência Moderna!

               Pascal, Newton, Kepler... O mundo gira, a terra gira, e o universo não se resume ao Sistema Solar, a ciência avança e promete um mundo onde o homem será seu deus.  O homem moderno não precisa de nada além da sua razão para dominar a natureza e a tudo reproduzir com esse conhecimento infinito que a ciência lhe oferece! Mas nem tudo são flores no caminho da razão... Kant lhe golpeia fortemente, quando lhe impõe certos limites, principalmente no campo do conhecimento! Apesar de todos os ataques e críticas, a razão avança firme implantando  seu império científico.

             Acendem-se as luzes  no mundo e a  razão continua soberana e firme, comandando o progresso da humanidade, lhe permitindo criar tecnologias que lhe vão tornando cada vez mais forte e capaz  de dominar o ambiente natural, modifica-lo e até recriá-lo ao seu bem prazer. O iluminismo aponta para a razão como a deusa da liberdade e da paz. A Ciência é humana! A religião se recolhe aos templos, divorcia-se do Estado, recorta-se, reparte-se, busca os novos mundos, enfraquecem politicamente e perdem força moral. “Se Deus está morto, tudo nos é permitido!” dirá, anos mais tarde, Dostoievski, na voz de seu personagem Ivan. Depois dele, Nietzsche se tornará o arauto do humano pós-moderno, na figura impar de Zaratustra, o anticristo moral. A Humanidade avançará na tecnologia e apodrecerá em seus valores morais e suas atitudes niilistas.

             Napoleão “liberta” a Europa definitivamente de seu sono metafisico e avança a revolução industrial, as colônias do Novo Mundo, acalantam seus sonhos de liberdade com os hinos iluministas que soam na Europa e  tornam-se nações livres e independentes!   O Século XVII se deixa cair em luzes no Século XVIII, que por sua vez, faz brilhar ainda mais a deusa razão e sua mais reluzente filha: A ciência!

             O século XIX cai sombrio sobre o iluminado século passado... A Revolução Industrial reconfigurou o mundo e as sociedades, as cidades, as pessoas, derrubou os valores, os costumes e destruiu os modelos sociais fazendo surgir outros. O indivíduo está agora só, apartado dos outros. Uma nova concepção de homem surge, arcabouçado de novas categorias, operário, trabalhador, privado, público... A filha da razão dá a luz às novas filhas que o mundo moderno exige: Sociologia, Psicologia, engenharias diversas e o homem se torna peça de uma grande máquina industrial, mera engrenagem cujo único fim é mantê-la funcionando!

             Disso tudo padece o nosso querido século XIX, e o que ele lega para o século XX, além de aviões, tanques e navios de guerra,  é um mundo doente, doente de medo, que perdeu a fé e o rumo. Que não faz sentido e nem tem sentido. O homem que vive nesse mundo é tão sem sentido quanto ele, a sociedade está dividida em duas classes antagônicas e interdependentes, a Europa apodrecida e decadente se perde em conflitos e explode a Primeira Grande Guerra Mundial, uma Guerra sem porque e sem pra onde. Na Europa Oriental os operários aproveitam-se da insatisfação popular e tomam o poder, dividindo o mundo em dois blocos distintos e multiplicando o medo por mil! No Oriente o medo se chama fundamentalismo, no Ocidente ele pode se chamar Capitalismo ou Comunismo, Liberalismo ou Socialismo, mas seja lá, seja cá, ele tem a mesma face e seus frutos são os mesmos em todos os lugares, morte, guerra e violência.

               Mas, em meio a isso tudo, a ciência floresce e cresce rápida e faceira, cada vez mais brilhante. O medo é um terreno fértil para o crescimento das telecomunicações e a eletrônica... Mal se tem tempo de limpar os destroços causados pela Primeira Guerra e explode a Segunda, o mundo vai descobrir que  o medo não tem limites e que seu rosto pode ser o rosto de qualquer um, seu vizinho, seu pai, sua mãe, seu irmão... Se Deus esta morto, o homem é seu próprio demônio!

                A Europa se despedaça enquanto o mundo treme diante das modernas bombas e mísseis alemães, estarrecidos os homens assistem ao extermínio em massa de judeus, negros, deficientes, prostitutas... Quando nada mais de desgraça podemos imaginar que possa nos acometer, eis que acontece o pior, o homem finalmente virou deus, ele adquiriu o poder de destruir o mundo. O cogumelo maldito floresce em Hiroshima e Nagasaki. O medo assume a forma mais hedionda que o mundo jamais viu.

                A semideusa ciência chegou ao seu ápice. O mundo sem rumo e sem esperança se volta contra a mãe razão, ela já não faz sentido, já não é capaz de prover de esperança o homem. O medo é o novo governante da humanidade, colocamos todas as nossas fichas na ciência, vamos conquistar o espaço sideral, se este lar está ameaçado, precisamos buscar novos mundos, precisamos assegurar a sobrevivência humana, a primogênita da razão nos levará lá! Os jovens fazem amor e rasgam os sutiãs, cantam rock e vestem sarongs, queimam incenso e fumam haxixe e ópio, visitam o Nepal e morrem de overdose de sonhos! E ainda acreditam que as flores vencem os canhões e que e melhor fazer amor do que a guerra!

                 Hitler ressuscitou Deus e o povo judeu ganha seu pedaço de chão. O mundo se divide ainda mais, as ditaduras, os regimes totalitários, os líderes sanguinários se multiplicam pelo mundo afora. Lá no velho oriente as coisas pioram.  O medo agora atende por terrorismo e se veste  com o manto sagrado do fundamentalismo. Aqui do lado Ocidental, ele se chama guerra fria e se esconde atrás de cortinas de ferro e se veste de Imperialismo! Mas, o Século XX, não é um só, ele se multiplica, não cabe em cem anos, ele vai fazer mais. O computador se popularizou com a criação do computador individual e a internet ligou o mundo em redes sociais.  O homem em busca das estrelas, leva junto a guerra, colocou olhos no espaço, pisamos o solo lunar e fizemos a guerra nas estrelas, construímos estações no espaço e, aqui embaixo o muro caiu, o Papa saiu de carro e rodou o mundo, Mandela foi preso. Enquanto isso o papa peregrino levou um tiro na praça e mundo rezou! Se Hitler ressuscitou Deus, Karol Wojtyla o popularizou.

               Na Iugoslávia, o sangue correu sem que o mundo se importasse. Lá no golfo pérsico, Irã e Iraque fizeram mais uma guerrinha, Saddam invade o Kuwait  e Israel bombardeou a Faixa de Gaza, depois de atentados palestinos a soldados judeus. Mera rotina... Assim acaba o século XX. Fechamos o segundo milênio do cristianismo não mais com medo da guerra fria ou buscando estrelas, mas sim, legando ao novo milênio o maior dos feitos do homem moderno: Dolly, a ovelha clonada!

                O século XXI parecia ser o século da paz, onde  a preocupação do homem  se voltaria para as discussões morais e éticas, finalmente poderíamos ter a paz que tanto almeja a humanidade... Mas, uma vez mais o homem é surpreendido pelo medo irracional e sem sentido, o templo maior do capitalismo ocidental é ferido de morte e o mundo estarrecido assiste ao vivo e em cores as Torres Gêmeas do World Trade Center, sucumbirem sob um ataque terrorista em que dois aviões foram arremessados contra elas, deixando um saldo de mais de 5000 mortos... Bin Laden é o responsável... O Iraque é invadido e finalmente Bush filho concretiza a vingança americana enforcando Saddam. O Iraque não possuía armas químicas!

                No país em que o racismo sempre foi um problema sério e o capitalismo tem seu mais forte pilar, um negro é eleito presidente e o sistema financeiro entra em colapso...  Na Líbia, a revolução passa pela rede e Kadafi é deposto e morto, israelenses e palestinos continuam trocando tiros em Gaza...

Manoel Nogueira da Silva.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

EFEITO COLATERAL





Hoje, fitando o tempo
Sentado na varanda da memória
Me vejo refletido na loucura
Do mendigo que me acena
E já não é lembrança
O que me faz sorrir
É a vontade insana
Travestida de história
Que a mente já não sóbria
Constrói com os retalhos
Dos sonhos ou dos atos...
Não importa mesmo
Se é fato ou retrato de uma ilusão
Meu desejo de juventude
Não distingue o ato real
Apenas desfruta a emoção
Que engana os sentidos
E acaricia o coração.

Manoel N Silva

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Jóia falsa



Fitar os olhos
De quem já foi o oceano
E simplesmente descobrir
Que já não existe sequer olhar
Que eu apenas desfolho a visão
No imenso vazio, ouvindo o som
De um passado calado
No olho de um velho deserto
E se me faço menino
Te encontro silêncio opaco
Numa fotografia amarelada
Ou se te refaço na ilusão
De uma noite comprada
No brilho falso de uma jóia de aluguel
Me deparo com o ridículo do ato
Ao fitar o céu de vidro
Desse paraíso de lata.

Manoel N Silva.