domingo, 29 de agosto de 2010

A Eticidade em Hegel


             Caracteriza-se pela efetivação da liberdade no real. É a moralidade concreta, não mais opinião e boa vontade, fundamentando as leis e as instituições. É o conjunto da moralidade da família, da sociedade civil e do Estado, acontecendo entre seus membros. Dessa forma fica evidenciado no individuo a honestidade, honradez, inteireza e integridade. É adotado como substância moral, não sou eu como pessoa, como no direito abstrato, nem muito menos o direito da consciência, mas sim o direito enquanto Espírito real de um povo.

              A eticidade, a fim de realizar a liberdade, percorre três diferentes tempos:

1 - Família – Como moralidade objetiva, imediata e natural;
2 - Sociedade Civil – Associação com o fim de atender carências, necessidades e dar fiança à propriedade privada;
3 - Estado – consagração universal da vida pública.

Família

               É a primeira unidade de união social, dá-se o reconhecimento do casamento como uma união moral: é o reconhecimento do outro, e sua construção exterior está no sentimento.
A família tem sua realização no casamento, e seu desfecho são os filhos, a perpetuação da família.
Podemos também dizer que a família se realiza nos seguintes momentos, casamento, propriedade e educação dos filhos e dissolução.


Sociedade Civil

             Acontece como agrupamento de seres privados, preocupados com a realização de suas pretensões pessoais. Realizam então suas carências por meio das coisas no seu exterior, a propriedade, riqueza, através atividade sociais e pelo trabalho. - Carências - tomamos as carências em sentido amplo. Na proporção que o indivíduo sai do estado de solidão natural se depara com novas necessidades inerentes ao convívio com seus semelhantes: São as chamadas carências sociais. São parte do universal, comum a todos antes da associação.

             O trabalho media a satisfação das carências no seio da sociedade. Neste momento só acontece uma universalidade que é o Direito a todos da propriedade - reconhecido e mantido pelo Estado. Para o cumprimento da lei, é necessário o reconhecimento coletivo. A violação de um preceito legal não é apenas particular, mas uma transgressão pública, tornando-se perigo para a sociedade, como um todo. Daqui em diante transcende-se a o particular, e constrói-se uma unidade com a universalidade. O poder de policia tem por fim coibir a injustiça, proteger os negócios coletivos e instituições voltadas para o interesse de todos.

              A sociedade civil, faz surgir uma instituição de estrutura similar à família, dentro do contexto coletivo: a corporação. Sua finalidade primordial é velar e realizar o que há de universal no particular da sociedade civil. Quanto aos membros como partes da sociedade civil, não têm interesses exclusivamente particulares, tem o dever de conduzir a vontade humana à esfera do universal, ao Estado.

Estado

               É no Estado que se dá a realização efetiva da eticidade. A liberdade realiza-se plenamente, vindo tornar-se clara para si e consciente em si. Hegel afirma então afirmar ser o Estado o fim último da razão, detentor de um direito elevado ao relacionado com o direito individual, os componentes do Estado têm nele o mais alto dever. No momento em que as pretensões particulares colidem com o universal temos a super posição da liberdade pessoal e da propriedade privada como o fim último, substituindo os interesses universais. A contrario senso a visão de Hegel é a vida coletiva e os indivíduos ali dentro passam a ter realidade, moralidade e objetividade.


Manoel N. Silva 

HEGEL, Georg Wilíelm Friedrich, 1770-1831. Princípios da Filosofia do Direito /G.W.F. Hegel; tradução Orlando Vitorino. - São Paulo : Martins Fontes, 1997. (Clássicos) 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Moralidade Hegeliana


              A moralidade é essencialmente o lado subjetivo das obrigações recíprocas sociais institucionalizadas nos contratos e no mercado econômico. Indivíduos experimentam tais obrigações recíprocas como uma obrigação moral de respeitar os direitos universais.

              Moralidade é o gesto em direção ao que deveria ser e muitas vezes não é. É um ideal abstrato, uma visão do bem, baseada no reconhecimento mútuo de direitos. As pessoas são moralmente motivadas por um sentimento de dever de defender os direitos universais dos indivíduos. A moralidade, segundo Hegel, indaga pela "autodeterminação da vontade". Pelos propósitos e intenções que movem o sujeito agente.

             A responsabilização, do ponto de vista subjetivo, portanto, exige a presença destas duas condições: o reconhecimento e a vontade. Na exteriorização a vontade reconhece como seu o que ela soube e quis fazer. Só um ato livre pode ser responsabilizado. É o direito de saber que cada indivíduo tem.

             No, Princípios da Filosofia do Direito, Hegel tenta fundir diversos elementos de sua filosofia e pensamento social em uma grande declaração sobre a natureza da modernidade. Ele traça uma concepção moderna de individualidade e do indivíduo como portador de direitos de modernas instituições sociais, econômicas e políticas.<

             Ele também descreve como esta noção moderna do indivíduo, enquanto a positiva em muitos aspectos, dá origem a determinados esforços e para a alienação do indivíduo do coletivo. Na primeira seção, Direito abstrato, Hegel retorna a um tema de escritos anteriores em que ele luta com a crença bastante comum de "direitos naturais" que estão presentes várias teorias, por exemplo, no "contrato social", de John Locke, onde diz que a ordem social ou política é para derivar sua legitimidade da sua capacidade de defender e proteger os direitos de autonomia, os indivíduos soberanos.

               Para Locke e outros, o social é apenas o resultado de um contrato entre indivíduos autônomos a respeito uns dos outros direitos. Nessa visão, a extensão da relação de uma pessoa para outra pode ser resumida no slogan: "Seja uma pessoa e respeite os outros como uma pessoa." Hegel acredita que esta visão da vida social de um modo geral é precisa, mas ele rejeita a crença de que reconhecimento mútuo contratual e o ideal universal de direitos individuais sejam os fundamentos que suportam as bases de todas as sociedades ao longo da história. A visão de mundo implícita na teoria do contrato e na obrigação moral de respeitar os direitos individuais não é o fundamento da vida social, mas sim um reflexo do espírito da época moderna.

             Ele também critica a teoria política contemporânea e idealista da filosofia moral por não reconhecerem que os fenômenos que reconhecemos como leis universais são expressões realmente especiais da cultura moderna.

             Hegel pretende determinar, na moralidade, as condições de responsabilidade subjetiva. Sua preocupação é com os desdobramentos, circunstâncias e conseqüências do agir.

             Para Hegel toda ação concreta, pode acarretar inúmeras conseqüências. Por isso só se pode ser responsabilizado por algo do que se tinha conhecimento. Só me pode ser imputado o que eu sabia acerca das circunstâncias de uma ação. Por outro lado, deve-se levar em conta que existem conseqüências necessárias às ações e que nem tudo pode

             Não se podem ignorar as conseqüências, porque elas constituem a própria ação; manifestam a explicitam o que é a ação mesma, e também, que muitos aspectos de fora da própria ação se juntam a ela contingentemente e mas não são a própria ação diretamente. Como então distinguir o que é e o que não é da ação? Para solucionar isto, Hegel propõe que passemos do propósito a intencionalidade da ação.

              A intenção abrange também a objetividade enquanto o propósito é puramente subjetivo. A intenção considera as conseqüências das ações particulares sobre o universal. O propósito é individual. A intenção é o propósito universal.

              O meio pelo qual se chega a normas consensuais na moral e no direito é o discurso argumentativo, exercido por todos os indivíduos. Isso os tornará co-responsáveis pelas conseqüências de suas ações.

              Em caso de "perigo extremo e em conflito com a propriedade jurídica de outro", escreve Hegel, a vida tem um "direito de emergência". Trata-se de um direito, e não uma concessão. O direito de emergência é o direito de defender a vida, mesmo que para isso tenha que lesar a propriedade de outro. A vida é um direito anterior ao "direito abstrato". O direito abstrato trata dos direitos mais imediatos dos indivíduos, entre eles, o direito à propriedade. A situação de emergência não invalida a lei, mas mostra que ela não é absoluta. Isto significa dizer que é necessário levar em conta as circunstâncias de cada situação.

Manoel N Silva



HEGEL, Georg Wilíelm Friedrich, 1770-1831. Princípios da Filosofia do Direito /G.W.F. Hegel; tradução Orlando Vitorino. - São Paulo : Martins Fontes, 1997. (Clássicos)

domingo, 6 de junho de 2010

ÉTICA UTILITARISTA





Para os utilitaristas, os únicos princípios éticos que regem o agir do homem são a fuga da dor e a busca do prazer. Segundo Jeremy Bentham, devemos agir conforme o cálculo da felicidade, uma formula quantitativa que apuraria o prazer e a dor causada por uma ação. Segundo essa ótica utilitarista, o que vale para dizer se uma ação é boa ou má é quantidade de prazer ou dor que ela causa, portanto ela é totalmente empírica. Ao contrário da ética Kantiana, totalmente interiorizada com seus imperativos hipotéticos e categóricos, a ética utilitarista, na sua forma pura, não leva em consideração a intenção, e sim o resultado.
Essa é mais ou menos a interpretação que a maioria faz do utilitarismo, a meu ver, errônea e usada convenientemente para justificar os extremos do capitalismo para tentar justificar a miséria de uma parte da sociedade em função do beneficio da maioria.
Eu particularmente adoto uma ética baseada no utilitarismo Milliano, que propõe uma ética utilitarista e faz um cálculo qualitativo da felicidade, apesar de basear-se também no mesmo principio: fuga da dor e busca do prazer.
Procurei sempre guiar minhas ações no sentido de promover o melhor resultado. Minhas ações são pensadas de modo que menos consequências desagradáveis ela me traga e aos outros. Isso não quer dizer que eu vá agir em função do outro, ajo sempre em função ou de mim, ou do "nós", o outro é sempre a última opção e, só escolhida se trouxer algo ao "nós" o que, indiretamente, beneficia o "eu".
E por mais que essa ética se mostre egoísta, egocêntrica esse meu comportamento tem como principal ação o respeito ao outro, pois é o outro igual a mim.
Portanto, respeitando-me, respeito-o, pois não vou ferir-me e consequentemente não vou ferir o outro que é meu igual, e companheiro de jornada, além de sermos dependentes um do outro para sobreviver.
Essa ética a qual condiciono esse meu agir é perfeitamente humana, empírica e baseada em ser feliz e promover a felicidade de todos.
Alguns sempre me dizem, não podemos agir somente com a razão, precisamos levar em conta as emoções. Você age friamente, pensando só no melhor resultado de sua ação...
Sim, contra argumento, agir movido por emoções todos nós agimos, agora essa emoção não é e, nem pode ser já ato, ela precisa passar pela razão, para poder ser interpretada e externada em forma de ação, de modo que não nos traga dor, ou pelo menos que nos traga a menor dor possível.
Que outro instrumento de compreensão e elaboração de conceitos e preceitos poderia adotar, para raciocinar, senão a razão? Ou será que podemos agir totalmente por instinto? Não! Aqueles que agem totalmente por instinto são animais irracionais, desprovidos de consciência, de vontade, determinados.
Mas, a razão é apenas instrumento, somos seres emocionais, somos movidos por sentimentos e, no meu entender, sentimento é uma emoção elaborada, uma tentativa de compreensão e expressão da emoção, um conceito acerca dessa emoção.
Portanto, passa necessariamente pelo crivo da razão, o que me leva a concluir, que tudo passa pela razão, até mesmo aquelas sensações (emoções) que não conseguimos conceituar, apenas sentir e que provocam ações imediatas (por instinto), essas(as ações) sim, sem controle racional. Como, por exemplo, alguém joga um punhado de areia em meu rosto e, imediatamente fecho os olhos, o ato é imediato, instintivo, mas é o conhecimento anterior da emoção (no caso aqui a dor que a areia provoca nos meus olhos), me "despertou" o instinto. Portanto essa emoção (a dor) já foi anteriormente experimentada e devidamente analisada e registrada pela razão.
Mas, aí alguém me pergunta, é possível extrair quantitativamente a priori o grau de êxito ou "felicidade" de uma ação, desconhecendo os seus resultados?
Não, repoderei, por isso a ética que se baseia nesse principio, é empírica, ela se baseia na consequência, não existem regras a priori, é a experiência que vai nos dizer se a nossa ação é boa ou não. Essa não é uma ética intimista. É uma ética prática que se realiza na ação e tem seu valor definido na consequência.
Por isso me afasto um pouco de Bentham e tenho mais afinidade com a proposta Milliana, de um cálculo qualitativo da felicidade. Ou seja, não é quantidade de felicidade que importa para dizer se uma ação é boa ou má, mas sim a qualidade da felicidade.
No entanto, dizem os críticos de Stuart Mill que ele se afasta do utilitarismo, pois seriam adotados valores abstratos nesse cálculo, eu discordo, já que essa qualidade é definida pela experiência e não aprioristicamente.
Manoel N. Silva

domingo, 2 de maio de 2010

ORAÇÃO



Quisera
A certeza!
O doce prazer de sentir
E ter fé
Caminhar no escuro,
Fechar meus olhos
E saber como chegar...

Quisera
A calma do crente
Sempre conciso
Quase contente
Nunca se reparte
Nunca se ressente...
Não duvida. Não se revolta.
Só a fé se reporta!

Quisera
O temor do crédulo,
Ao castigo inútil, sem razão,
Entregar-me...
Caminhar sem olhar os lados,
Os cantos, os becos, as sombras.
Apenas lamentar e,
Contrito me calar.


Quem dera
Poder me olhar no espelho
A barba aparada
O cabelo arrumado
Uma bomba ao largo
Explodindo milhares,
E eu, tranqüilo,
Meu bigode pentear...

Quem dera
A alegria de cantar
Vestido de esperança
E durante o canto,
Daquelas doces crianças,
Como se fossem bichos
Envoltas em lixo,
Não me lembrar...

Quisera
Um lindo hino
Na boca de um menino
Me enchesse de emoção
E que um prato vazio,
Uma mão estendida,
Não me tirassem o tino!


Quisera
De terno e binóculo
Do alto da minha fé
Olhar o mundo
E ver apenas rebanhos
Ovelhas brancas e ordeiras
E eu, do alto da minha idiotice
Sentir-me pastor e guia
E de dentro de minha
Megalomania
Declarar-me feliz!!!


Manoel Nogueira

quarta-feira, 24 de março de 2010

Relação





Eu te olho...


Tu me olhas...


Eu não me vejo,


E tu não te vês


É que me encontro


no caminho entre você e eu


Sou essa passagem instável,


Que nos define e que nos separa.


E, nesse desenlace


sou o abraço e o espaço,


entre a minha mão estendida


e a tua mão espalmada!


Sou a soma e a diferença,


Que nos impulsiona e nos aprisiona.


Não sou eu e nem sou você


Nem somos nós...


Somos, você e eu,


O vazio entre o gesto e a voz!


Manoel N Silva


Fortaleza, 2009