sábado, 16 de março de 2019

SEMENTE ENTRE AS PEDRAS




Um dia
Dos desejos sem fins
De dois amantes distraídos
Nasci
Sem a força dos queridos
Mas, com  o medo dos alheios
E a gana dos desesperados
Sobrevivi
Se hoje sou fato
E se de fato sou
Não me defino existir
Vivi
Nas dobras das ruas
Meus caminhos  se curvam
E aos meus ódios natais
Sucumbi
Sou um olho sem brilho
Fora dos trilhos e da luz
E nada é o que me conduz
Reflui
Porque o que me fere
Não se refere ao desejo
É o mistério do meu  ser...
A vida que não vivi!

Manoel N Silva.

sábado, 9 de março de 2019

O CHAPELEIRO LOUCO




                Começo essa reflexão entre percepções confusas, apreensões difusas, irracionais. Quisera a lucidez das certezas políticas e econômicas que sempre tive em tempos anteriores. Quisera, mesmo que no crivo dos censores e diante das amarras da ditadura, a clara visão do inimigo, o conhecimento de seus objetivos, a consciência de suas armas e suas ambições. Ou, em tempos de liberdade, as tendências e interesses no tabuleiro do jogo político, onde cada peça tem seus movimentos declarados, cada jogador tem seu objetivo definido e as regras são do conhecimento e alcance de todos. Hoje me sinto Alice no tabuleiro da Rainha de Copas, as regras são quebradas sem punição e os jogadores adversários são meras cartas de um baralho viciado, cujo dono ninguém sabe, ninguém viu!
            Olho ao redor na tentativa de entender quem manda! Quem decide os destinos de mais de duzentos milhões de brasileiros? A quem entregamos nossas vidas e nossos desejos de nação? Como fomos tão ingênuos e tão tolos?
            As perguntas aqui formuladas, na realidade são mera retórica, sabemos que não há culpados e nem inocentes, não somos tolos e nem ingênuos, nossa sociedade é isso que hoje nos governa. Não houve enganos! Em cada cidadão de bem, em cada pai de família, em cada crente, reside um Bolsonaro, ou parte dele. Essa incerteza é fruto da diversidade de sentimentos e desejos que levaram esse protótipo de ditador,  fantoche  ou mero espelho social, ao cargo de presidente.
            Até aí, tudo bem! Mas, o que me intriga e me desespera é que ele não se definiu governante e nem definiu quem governa! Ele é uma incógnita, uma fábrica de contradições e ações desencontradas. Seus aliados batem cabeça, se desculpam e desculpam-se, desdizem-se e não se definem. Não sabemos quem governa e, me parece, nem eles.  O governo reflete em sua constituição a mesma disparidade de seus eleitores, de um lado temos o grupo militar que até agora não disseram a que vieram, se são a espinha dorsal desse governo ou se meros acessórios; de outro lado temos o núcleo político que  se equilibram entre os processos e investigações e o trânsito no parlamento; já os super ministros da Justiça e da Economia estão de mãos atadas e reféns das suas histórias, calados, cabisbaixos e sem força real; se não bastasse, temos ainda o núcleo psicodélico, surreal, pirotécnico que só falam e fazem besteiras e asneiras.
No âmbito do legislativo a coisa se repete, se de um lado temos no congresso uma maioria conservadora e afeita a pautas liberais, o partido de Bolsonaro e outros mais a direita, trouxeram um punhado de apolíticos, parlamentares que não aceitam o jogo dos discursos e das alianças, dos acordos e dos conchavos, acreditam eles que na politica tenha que prevalecer o “certo”, não entendem que a política é o campo das disputas verbais e que nem sempre vence quem tem a verdade e sim quem tem a palavra, o verbo.
No campo do Judiciário, a campanha politica, os privilégios e os erros da Lava-jato, colocaram os juízes e os tribunais de calça curta, reféns de seus atos impróprios e nada éticos, embora legais, não tem a força moral para ganhar a confiança do brasileiro. O STF virou piada e a Lava-Jato sinônimo de abuso de poder.
No lado social e corporativo, temos as mesmas incertezas, centrais sindicais não se definem enquanto oposição ou situação, setores organizados da sociedade não se colocam claramente diante da situação. OAB, CNBB, FIESP se fazem de mortas...
Apear de tudo que aqui expus, infelizmente não consegui chegar a uma conclusão clara, definitiva, que pudesse satisfazer minha mente e acalmar a inquietude do meu ser. Termino essa reflexão sem respostas e com a sensação de que continuo na história de Lewis Carrol, e que não sei se o presidente do meu país é um rei de copas, um chapeleiro maluco ou um sapo-lacaio, e que eu  não terei a sorte de uma irmã me acordar para um chá da tarde...

Manoel N Silva

À SOMBRA DA OLIVEIRA




As luzes não se apagam
Os olhos não se fecham
As mãos ainda se agitam
Nada foi superado
Nada foi suprimido
Aquele calafrio maldito
Aquele frio na espinha
Em cada noite que se avizinha
É como um espinho na ferida
Que parecia já cicatriz
É uma janela que se abre
No porão dos meus suplícios
Medos e arrepios
Surgindo nas palavras e nos gestos
Transmitidas ao vivo
Surfadas no cibernético mar
Aquele som de corneta
Aquelas listras em vermelho
Aquelas estrelas douradas
Nos ombros daqueles homens
Vestidos da cor da oliva
Não me deixam sonhar
Não me deixam amar!

Manoel N Silva

domingo, 10 de fevereiro de 2019

ANJOS AMORDAÇADOS



E de repente
meu ponto
Meu Centro
Meu tino
Destino sem fim
Se faz out dor
Nas placas
Nos bancos
Nos flancos
Nos atos
Sem rumo
De algum ator
Me vejo
Sem termo
Sem ângulo
Nos olhos
Nos dedos
Nos medos
Dos que não são
E a ação
Sem fim
Sem função
Se escancara
Na cara
Nos olhos
Nos ferrolhos
Dos sonhos
Sem sentido
E perdido o desejo
Pelejo
Revejo
Retenho
O gosto
O cheiro
O tempero
Das coisas
Das causas
Das esquinas
Em dias de luta
De luto
De delito
Conflito
Entre amigos
Umbigos que brilham
Meninos que trilham
Caminhos escuros
Obscuros ideais
Ideias sem Luz
Nos lábios
Nos atos
Nos fatos
Os rastos
Os ratos
Que caminham
Que se arrastam
Nos buracos
Nos esgotos
Nos sacos
Descartados
No lixo do tempo
As lembranças
Os remorsos
Os ossos
Os dorsos
Os peitos
Todas as costelas
Todos os sinos
Nas igrejas
Todos os divinos
Ensejos
Os beijos sagrados
Os cálices
Limpos
As batinas lavadas
As mãos molhadas
E as consciências caladas
Emudecidas na fé
Anjos sem asas
Para sempre marcados
Para sempre amordaçados
E a canção sagrada
Sempre louvada
Servindo de fundo
Para esse cenário
Mórbido, macabro.

Manoel N Silva

ÍDOLOS DE BARRO



Meu país mergulhou
Na lama dos rejeitos
Queimou nas chamas
Dos descasos e desmandos
Sem sentido dos ressentidos

Hoje somos uma nação
Sem noção de real
Comandante sem moral
Rodeado de ratos e dementes
Senhoras e senhores ridículos

Ídolos e mitos
Nesse ambiente decadente
Desfilam esoterismos e cismas
Sufocam a ciência, a experiência
E exaltam a aparência insípida

Desmontam a esperança
Em nome da escuridão
Elevam o obscuro do moralismo
Despertam o lobo a tempos contido
E lhe oferecem o frescor dos jovens

Alimentam as larvas, eclodem os ovos
Das serpentes do medo e do fascismo
Ameaçam a liberdade e oferecem uma cela
Com janelas para os fundos da história
E a segurança de uma arma na sala.

E a maioria se cala, sem fala
A verdade virou mentira deslavada
E o falso, o inventado, ganhou vida
Saiu dos palcos e dos risos
Para se tornar pilar dos novos idos!

Manoel N Silva.